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nunca tinha visto Stig Dagerman, escritor sueco do pós-guerra. Ontem, li uma revista de Coimbra que apresentava este

como sendo o homem. No entanto, o verdadeiro Stig Dagerman é este


e o outro é apenas o vocalista de uma banda sueca a posar de maneira a lembrar o escritor....
Para rematar por hoje (?): peguei ontem em "Creezy", de Félicien Marceau, que já tinha comprado por pataco e meio há um ano sem qualquer referência que não as imediatamente adquiridas no momento em que o comprava. Comecei a lê-lo tarde e só deu para o primeiro capítulo antes de adormecer. Achei o início prometedor (um homem, numa praça, a lembrar-se); depois, fiquei inseguro sobre se acrescentaria alguma coisa à náusea de Sartre; antes de adormecer, entrevi o início do segundo capítulo e a praça e o homem pareceram-me perdidos. Descubro agora que Marceau ganhou o prémio Goncourt pelo livro... Será que o mundo foi de férias e se esqueceu de me levar?
daqui a hora e meia saio de Monção. Fico em Coimbra, mas no fim-de-semana tenho de ir a Lisboa. Entretanto, recebi uma resposta para um trabalho como jornalista no Algarve (que devo recusar). E julgava eu que parava no fim do curso...
Hoje tive um pesadelo: todas as pessoas, sem excepção, eram o Francisco José Viegas. Eu entrava num autocarro e havia logo quinze Viegas, ia a um hotel ter com a minha mulher (supostamente era casado com uma embaixadora) e o Viegas estava na recepção, a ler uma revista no lobby, o Viegas no elevador a dizer "Vai subir" a mais uns tantos Viegas, o Viegas de libré e com toalhas brancas dobradas sobre o braço a andar pelos corredores.
Depois comecei a sonhar com desventuras amorosas do amigo que ontem à noite revi depois de já alguns anos e não sonhei mais com o Viegas.
Só lá fui uma vez. Foi em Fevereiro de 2001, ainda se chamava Geniuzastare. Vi o "Julien Donkey Boy", que o Harmony Korine tinha realizado experimentando o Dogma 95 no outro lado do Atlântico. Andava a preparar um trabalho sobre o Dogma e a Nova Vaga, queria ir ver e, ainda por cima, havia alguém que queria conhecer em Lisboa. Fui de boleia com um amigo. Deixei passar a sessão combinada, tive de ir na que se seguia, perdi a boleia e voltei a Coimbra de autocarro.
Mas inscrevi-me na mailing-list. E recebia aqueles mails. Aqueles mails deliciosos, com as sinopses, as críticas e as imagens. E nunca deu para voltar, ou porque o dinheiro estava em baixo ou porque havia um maldito exame-buraco-negro ou por outro raio de impedimento qualquer.
E agora a Zero em Comportamento, a associação cultural que melhor mostrou cinema em Portugal nos últimos anos, vai acabar.
Shame on me? Não sei. Shame, é tudo.
Pouco separa Ed Wood de Kuléchov.
Há injustiças nos filmes. Durante a "Overture" de "Dancer in the Dark", o ecrã estava negro. Completamente negro durante quatro minutos. Sem pessoas, sem formas, sem tons. Mas a música. Lá. Como Selma a ouvia. Cega. Mais nada que não fosse a música e, durante quatro minutos, todos nós éramos Selma.
Mas um dia o filme foi para a televisão e puseram-lhe bonitas aguarelas no início. Olé.
O Sérgio e o Dato são bons amigos. Compensa. Muito.
Nos últimos dois dia, revi dois biopics e, com eles, uma série de sensações. Acho que dizer história de sensações será mais apropriado. A ver.

Já gostei menos de "Amadeus", de Milos Forman. A gravação que tenho ainda é do tempo em que um filme bom à quarta-feira (passou na "Lotação Esgotada", antiga rubrica do canal 1) podia ser alvo de um patrocínio especial por parte da Galp. Ou melhor, em que passar um filme podia ser um "happening" televisivo. É verdade, não resisti a espreitar aqueles anúncios publicitários antigos, não só o do Passport Scotch a preto e verde em que um homem e uma mulher percorrem uma data de espaços até se encontrarem - nunca mais nada me fez mudar tão rapidamente de canal -, mas também pequenas jóias, quer para o bem (o anúncio ao perfume Trésor, com Isabella Rosselini a fazer o sorriso mais bonito que alguma vez se fez na moda), quer para o mal (a pastelada vídeo da revista TV Guia).

Seja como for. Nessa altura, eu andava no ciclo preparatório e vi "Amadeus" porque gostava do riso do Tom Hulce e porque Mozart era mais rock' n' roll do que maçonaria. Hoje: a intriga palaciana já não me importa muito. Aliás, vejo que a história da morte é secundária, Mozart é secundário (isso já o sabia, mas não pelas razões de agora).

Ou seja: Salieri, que começa por tentar suicidar-se e acaba abençoando todos os medíocres do mundo como seu padrinho, não existe por ser um assassino, como eu julgava, mas por ser o exemplo de algo ou alguém num nível intermédio entre a humanidade e deus. Salieri como a aspiração a ser divino ou o homem que descobre deus num mundo pagão. Na verdade, a religião não aparece por mais lado nenhum, ela entra no filme só através dele. No filme, existem Salieri e Deus, tudo o resto são fantoches ou peças num jogo, numa tragédia que Salieri, enlouquecido pela sua "hybris", perde. Mais grego do que americano - ou seja, um clássico? Quem sou eu para dizer? Nem por isso, mas também, ou melhor, o filme aspira a sê-lo, tal como Salieri aspira a ser o que Mozart é e Mozart não se chega a completar, pois morre antes de concluir o Requiem para si mesmo. O filme deixa-se ficar atrás de um modelo, de uma forma reconhecível, recusa-se a encaixar completamente no molde em direcção ao qual se dirige porque sabe que fala do falhanço, da insuficiência do homem, e recusa-se a ser mais perfeito do que aquilo que contém. Enquanto biopic, de um realizador que se tem especializado em fazê-los, será talvez o mais perfeito que já vi.

(e serviu-me para compreender o meu fascínio antigo por qualquer coisa que se relacione com Praga, que só pude, aliás, finalmente visitar neste Verão: é ela a ser filmada em vez de Viena; ficou-me, sem eu saber, encravada na memória desde miúdo)

"Chaplin", de Richard Attenborough (que também realizou "Gandhi"), é uma obra menor e, se é que se pode dizer, muito menos envolvente do que a de Forman. Porém, há algo muito interessante neste filme; mais do que o modo como repesca e integra em si mesmo elementos da obra do retratado (através de versões de músicas e da adopção de marcas visuais típicas, como as perseguições), o que em si mesmo não é excepcionalmente original, é o modo como ele consegue que os seus momentos altos sejam os momentos realmente de Chaplin. O filme ganha (e sabe ganhar) profundidade quando mostra excertos, quer originais, quer reinterpretados, dos filmes de Chaplin. E o seu final - sim, apesar de pejado de sentimentalismo burguês, apesar de ser uma manipulação descaradamente hollywoodesca dos sentimentos do espectador, apesar de nada acrescentar e ficar muito aquém do de "Cinema Paraíso" no que toca à homenagem à arte cinematográfica -, o seu final, dizia, não deixa de ser um comovente momento... de quê? Fundamentalmente, de memória enquanto intensa experiência de vida.

P.S. Falava há dias da sensação de "de onde é que conheço esta cara". Pois bem, em "Amadeus", Cynthia Nixon, a advogada n' "O Sexo e a Cidade", é uma humilde e nada sofisticada criadinha. Deliciosa, perdão, delicioso.
há quem goste mais e quem goste menos do homem. juízos políticos à parte, resumiu muito certeiramente os acontecimentos do 25 de Novembro.

A LIBERDADE FAZ ANOS: 25 de Novembro de 1975. Sectores ligados ao «Grupo dos Nove» (encabeçado por Melo Antunes), apoiados pelo PS e PSD e com a conivência de Costa Gomes, desencadeiam uma intervenção armada com vista a evitar a deriva radical que a Revolução portuguesa havia tomado. É decretado o Estado de Sítio na Região de Lisboa. Os militares da ala moderada atacam as forças armadas que apoiam a extrema-esquerda, prendendo alguns dos seus cabecilhas. Carlos Fabião é destituído do cargo de Chefe do Estado Maior do Exército. Otelo é destituído do cargo de Comandante da arbitrária patrulha policial chamada COPCON. Ramalho Eanes é designado como novo CEME. A Assembleia Constituinte, livremente eleita pelo povo soberano, pode enfim redigir uma Constituição, sem as pressões psicológicas e as ameaças físicas que vinha sofrendo. No ano seguinte, é aprovada a Constituição, realizam-se as primeiras eleições legislativas (vencidas pelo PS) e também as primeiras eleições presidenciais (vencidas por Eanes). Em 1976 – e por causa de Novembro de 75 - Portugal torna-se, enfim, uma democracia. Convém não esquecer.

Pra putos.
depois de muito procurar
desisto. não encontro o "Anos 90 e Agora" nem por nada. peço à ana que mo compre (mais barato) na festa do livro da casa da cultura.
raios! porque é que ultimamente só perco coisas?
Durante uma leitura recente de "Fahrenheit 451", não consegui evitar copiar alguns trechos, de tanto sentido que fazem por trás dos seus certeiros 50 anos:

"Quanto maior for o mercado, Montag, menos controvérsia há que solucionar, não te esqueças!"

"Temos de dar concursos às pessoas que elas ganhem recordando as letras das canções mais populares ou os nomes das capitais dos estados ou quanto cereal produziu Iowa no ano passado. Temos de as encher com dados não combustíveis, atravancá-las com tantos «factos» até se sentirem empanturradas, mas absolutamente «brilhantes» com informação. Então, sentirão que estão a pensar, terão uma situação de movimento sem se moverem."

"- Oh, mas temos muitas horas livres.
- Horas livres, sim. E tempo para pensar? Se não conduzir a cem milhas por hora, a uma velocidade a que não possa pensar noutra coisa a não ser no perigo, então, está a participar num jogo ou sentado numa sala onde não pode discutir com o televisor nas quatro paredes. Porquê? O televisor é «real». É directo, tem dimensão. Diz-lhe aquilo que deve pensar e introdu-lo à força. «Deve» ter razão. «Parece» tão certo. Leva-o tão depressa a chegar às conclusões dele que a sua mente nem tem tempo de protestar «Que absurdo!» (...) Quem é que alguma vez se libertou da garra que nos aperta quando lançamos uma semente numa sala com TV? Dá-lhe a forma que quiser! É um meio tão real como o mundo. «Torna-se» e «é» a verdade."

Sobre os últimos tempos de Coimbra

Na verdade, a questão mais importante não é a de os estudantes fazerem bem ou mal ao impedir a entrada na Reitoria. Nem a de haver cadeados que bloqueiam a entrada das faculdades e departamentos. Nem a de professores intentarem um processo-crime contra o presidente da AAC.

O que é mais importante, aquilo que fica escondido por trás de todo o folclore dos autocarros, dos cartazes, dos vão trabalhar malandros, é o facto de professores, alunos, funcionários e todos os demais membros da academia (o que, no caso da cidade de Coimbra, não é dificilmente extensível a todos os seus habitantes) tão facilmente se esquecerem uns dos outros e de desconhecerem a razão da sua função - e do seu bem-estar nela - na existência e no bem-estar nela dos outros. Ainda mais profundo do que isso é o facto de já mais ninguém acreditar. Existe-se, ponto; e o que é preciso é manter o ponto, certo? Sem motivos, sem ambições; ideais são coisas de herói. Os professores queixam-se que lhes pagam mal, que não têm salas. Os professores têm medo. Medo de sair das salas, medo de despegar os olhos do livro que têm por baixo. É com a cabeça baixa que murmuram "gostava de ganhar mais, dava jeito ter material didáctico". Têm medo a quem escreveu o livro. Não querem faltar ao respeito, não querem inimigos. Quem sabe quem conhece quem, quem se ofenderá. Não há dinheiro? Aguenta-se. Vai-se para as privadas. "Eu sei como o sistema funciona, ninguém dá nada a ninguém, e menos se dá a quem pedir, portanto, eu não pedirei". Não há salas? "Terei sempre uma cadeira para me sentar, do resto, virá quem vier, a aula será dada". Não há material nos laboratórios? "Uns fazem, os outros olham; depois trocam". As coisas resolvem-se, as coisas andam sozinhas. Não é preciso querer.

E os estudantes? Perdão, os de esquerda ou os de direita, de qual esquerda e direita, do Porto ou de Coimbra ou de Lisboa; e os que não falam, esses atinados, os que ficam à porta porque os maléficos dirigentes não os deixam entrar, os do eu quero é ter aulas, não me importo de pagar mais?

Tudo, tudo, as costas voltadas uns para os outros. Como se entende que um professor se permita fazer o papel ridículo de levar escondido debaixo do casaco um serrote para despedaçar uma corrente que está lá, antes de todos os seus vícios e em toda a sua ingenuidade, para evitar um retrocesso social (o fim da paridade de representação nos órgãos de gestão universitária, um aumento no custo de acesso a um serviço prestado pelo Estado)? Ambições de líder revolucionário? "Venham, meus pupilos, eu vos libertarei das malhas do obscurantismo! Pagaremos o que for preciso, todos nos deixaremos apagar no que de nós vive fora destas paredes, estas paredes que amamos, que abrigam a malha cuidadosa do nosso saber! Eu quero, posso e ensino, eu quero, posso e ensino!"

E depois: "nós até estamos do lado dos estudantes, mas isto é inadmissível. Isto é um ataque aos professores!". A solução. "Eles que falem, que prendam. O dinheiro vai entrar, se não for pelo lado de cima, é pelo lado de baixo. Não nos podem roubar a nossa maneira silenciosa de nos queixarmos. Eles podem pagar. Eles podem pagar, é o que interessa".
E a Constituição diz que incumbe ao Estado estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino. "Mas isso é um custo que se paga se se vir que tudo vai ficar melhor; estes alunos é que estragam tudo, mas nós reclamamos o direito de acesso ao local de trabalho, vamos trabalhar sossegados, mostramos como isto funciona bem e quem é de nos ajudar fá-lo-á. Depois, nada funciona bem; não importa mesmo nada, o que importa é nós esperarmos sempre que funcionará melhor".

Ferrer Correia morreu há dias. Numa das biografias, reli (soube-o aquando do trigésimo aniversário da Crise Académica do Maio de 1969) que ele e Paulo Quintela foram dos professores que mais intercederam junto da polícia a favor dos estudantes. Hoje, os professores querem que os alunos que lutam pelos seus direitos, pelos tão poucos que lutam pelos seus direitos (acentuo ainda mais a tónica desta frase: que lutam pelos seus DIREITOS), vão para a cadeia. Cheios de azedume, sem alternativas entre o cadeado e o silêncio. De costas voltadas. A academia existe? Ou a academia funciona? Existe, ponto. Está estática; é porque é. Não move os punhos em luta; deixa-se estar deitada enquanto metade de si rejeita a outra metade como que num ataque epiléptico. A academia não quer, a academia já não é o que era. Mas a academia existe, ponto, sim, e de costas voltadas, ponto, sim, ponto.
Há dias, o Fernando Nunes pedia-me opinião sobre o seu recente livro em parceria com o António João Lima ("Construções na Areia, edições Quasi) e eu, que nunca fui muito de conversas à borla, chamei-lhe a atenção para o campo de minas em que ele se tinha metido – como combinar as especificidades das linguagens da fotografia e do texto conseguindo um paralelismo equilibrado? Apesar de o “Construções na Areia” resolver o dilema de modo eficiente (a fotografia deixa-se preencher pelo texto, que lhe acrescenta o mar como elemento que o enquadramento mais pressupõe do que integra), só vi isto completamente resolvido, a um nível de cortar a respiração, no livro que ontem reli, aproveitando a estada de uma semana na casa natal. O livro da colecção 55, da Phaidon, dedicado ao Eugene Richards, em que o autor pensa um monólogo (apenas uma frase, uma longa frase ao longo de todo o livro) que acompanha as fotografias. Acompanha, não complementa. Além do mais, é uma belíssima lição para quem acha que os fotógrafos (fotojornalista, ainda por cima) não sabem escrever.
E não é que, vendo um filme para toda a família, o destino embrulha-se e troca a corda dos dias? Jane Adams, médica nas cenas finais de “Father of the Bride 2”. Será que também já fez alguma coisa com essa verdadeira “persona” criada de raiz para o Domingo à tarde e que vagueia pelo mundo com o nome de Adam Sandler? A ver vamos.
ao som do frank zappa, "mothers of prevention" (e quando chegarão as "porn wars"?")

estive a rever o "Happiness", Todd Solondz, durante o dia, repartido entre várias investidas a uma internet lenta e monótona (parece que não é só o Pedro Mexia a ter problemas; há sempre algo a puxar para baixo, para o concreto - como no outro dia, eu a escrever e de repente uma voz que pergunta se sabia consertar um casquilho solto). Só o tinha visto uma vez, no ciclo Vintage (os melhores do ano) no TAGV, já há uns bons três anos, se não mais. Se na altura

e aí está o então senador Al Gore a confessar a Zappa o quanto adora a sua música

se na altura serviu para eu e o Pedro sairmos do TAGV calados de comentários um para o outro - a recuperar do murro no estômago, claro -, desta vez serviu para solidificar a consciência da presença de uma actriz, daquelas do "conheço a cara, mas não me lembro de onde". Jane Adams, actriz de Seattle (lugar imaginário para mim - ainda agora possuo uma camisola grunge...), tem duas qualidades que me fazem apreciá-la muito: só a vi em filmes bons ("Happiness", "Wonderboys", "The Anniversary Party"), o que é mérito da sua boa gestão de carreira e do meu não ver todos os filmes que existem; esteve fantástica em todos esses filmes bons, o que é mérito apenas dela. Consegue aliar um jeito esplêndido para ser vulnerável a um enorme potencial de expressividade (os olhos, céus!, os olhos), treinado seguramente nas suas origens teatrais. Lembram-se de uma peça de há uns anos com Ricardo Carriço e Diogo Infante chamada "Odeio Hamlet"? Ela fez, na Broadway. Aqui fica uma foto dela e John C. Reilly, marido em "The Anniversary Party".



agora já é "the bends", radiohead - como é que Thom Yorke sabe dizer "you" tão bem?
entretanto, ontem também tive oportunidade de ver o Elephant (entalado entre beijinhos de parabéns à minha namorada). Apenas uns comentários breves.

Primeiro, descobrir a progressão do cineasta Gus Van Sant. "My Own Private Idaho" era um exercício intenso - e de uma honestidade (homo)sexual comovedora. Sem gracinhas, esse filme era já um pico, enfim, uma primeira obra-prima. "Elephant" é uma obra de maturidade; penso que isso foi sempre uma evidência que me surgiu em criações de maior rigor e que nunca provoquei. Ou seja, nunca parti para as obras com a função "descartar ser obra de maturidade" escrita na mão (e, assim de repente, estou a lembrar-me de algumas: "Jackie Brown" para Tarantino; a trilogia das Mulheres Sacrificadas para Lars von Trier; "Tips and Shortcuts" para os Primitive Reason). Ontem, enquanto via "Elephant", isso voltou-me ao pensamento. Será pela paz, por uma certa coesão calma na concepção dos planos?

Segundo, é engraçado reparar como Van Sant compreende o universo do liceu (ou tem de ser escola secundária?). É bem verdade que cada um vê aquilo que quiser ver, mesmo que não tenha disso conciência; ora, eu recordo-me do ambiente passivo-agressivo, de sentir olhos na nuca. Vergonhas em círculo fechado a vigiarem-se umas às outras, todas prestes a explodir.

Terceiro, Van Sant tomou o digestivo expressionista de "Gerry" para aplacar as palpitações que Holywood lhe tinha deixado, não? Repare-se no equilíbrio : quanos planos nascem de uma deformação colorida - que lembra "Gerry" - para se transformarem lentamente (sem pressas: é preciso olhar para eles) em continuação da narrativa? Ou, pelo menos, da análise subjectiva de uma linha de acontecimentos que o filme é? É que "Elephant" não está no espaço e tempo que mostra, mas sim no de quem o dá a ver.

Onde é que se pode ver (outr)a escola tão bem filmada?

P.S: Este filme foi comentado de maneira muito mais modesta por alguém cuja crónica semanal foi para mim, durante algum tempo, absolutamente imperdível. Depois, ela acabou e eu comecei a ler outras coisas que antes não teria lido.

"Amarcord"

Não posso dizer que a cópia parecesse restaurada ou, pelo menos, que o parecesse muito bem. Não posso afirmar com toda a certeza que a perda se deveu às condições não tão boas do Estúdio 2 dos cinemas Millenium-Avenida, que são (sem sombra de dúvida) as salas principais de Coimbra e que, por isso, deveriam chamar a si maior responsabilidade. Fosse lá o que fosse (e talvez Fellini andasse com o mesmo problema que acossa muitos filmes portugueses - penso nos últimos de Paulo Rocha), o som estava muito mau.

Ainda assim, o tempo. As bruxinhas, que voam no início e acabam de voar no fim. O tempo a ressumar do filme, o tempo da memória, mas também o tempo dentro do que é lembrado. Para quem não sabe, "Amarcord" é uma expressão da região de Emilia-Romagna, onde fica Rimini (cidade-natal de Fellini e cenário do filme), e que significa "eu recordo" - tomem lá para todas as associações. Apenas mais um tópico para reflexão: a linha narrativa de "Amarcord" é criada na consciência, que acolhe impressões de tempo, e não uma história nítida, definida, dura. Isto não tem nada a ver com o onirismo, se bem que também tenha. De todos os Fellinis que já vi, e talvez juntamente com "La Dolce Vita", é aquele em que há uma maior aproximação a algo que será o essencial do narrativo em cinema.

Mais uma curiosidade: o nome da personagem "Gradisca", no filme, vem da frase "Maestá, gradisca...", que significa (segundo aquilo que percebi dos sites em italiano que consultei) algo como "Majestade, encantada". Interessante, interessante, é o facto de ter mesmo existido uma Gradisca em Rimini (Gradisca Morri, falecida em 2001 com 85 anos), mas a sua alcunha não tinha uma origem tão exótica como a que aparece no filme: chamava-se Gradisca apenas porque o seu pai combateu na cidade de Gradisca d’Isonzo aquando da Primeira Guerra Mundial. Para mais informações.
ontem à noite encontrei o bloco. fantástico; é por coisas como esta que penso às vezes na possibilidade de uma vocação religiosa para o mundo.
acabei de me dar conta que perdi um pequeno bloco em que registo coisas várias - as mais quotidianas, menos de aspirações. Pergunto-me se, em casos do mesmo tipo, esta sensação será universal: o que tinha eu lá escrito? Felizmente, ainda me recordo da conta que vou pagar amanhã na óptica. espero não sentir nenhuma pontada daqui a uns tempos quando precisar de recordar algo importantíssimo. sigo para ver o amarcord.
licenciei-me há pouco tempo, não trabalho, ando a ver se escrevo um romance, ando a ver se publico poesia. acho que é tudo por enquanto.
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