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o homem grande no momento em que o dia acaba

Numa tarde, eu regressava do escritório e, ainda com os fantasmas pretos e brancos de requerimentos e recursos a ricochetearem-me os cantos cavernosos da memória fresca, passei pelo sítio em que as pessoas do fim de tarde se reuniam antes de irem para casa. Havia então uma voz a fazer as vezes todas de voz. Era a de um homem alto, cabelo queimado da idade, pele espessa e um selo melancólico no escuro dos olhos endurecidos, ouvido na sua conversa por um anão bem mais destruído pelos anos.
(excerto de conto meu a sair na próxima edição da revista Via Latina).


LAS PALABRAS

Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas sus palabras.

a peste combate a abstenção

Aqui estão os programas eleitorais do Be, Pcp, Ps e Psd. Quanto ao Pp, o partido tem o site em baixo já há algum tempo e julgo mesmo que ainda não apresentou o programa (ao contrário das expectativas anunciadas).

o be e as críticas

Dito isto, afirmo que me faz particular espécie a crítica ao Bloco de Esquerda no sentido de representar uma classe média urbana, confortada na vida e que nada tem a ver com o eleitorado tradicional de esquerda. Até pode ser que isto seja verdade. O que não entendo é porque é que essa hipotética falange social, que, diga-se, ainda não foi caracterizada de modo evidente, será menos merecedora de representação política do que outra qualquer. Se realmente ela existe, tem ideias e necessidades, opiniões e mais de 18 anos, então ela tem existência política e eleitoral e não é diferente das outras à face das urnas. Criticar o Bloco de Esquerda por falar especificamente a este segmento do eleitorado é tão ridículo como criticar o Partido Popular por falar especificamente aos democratas-cristãos.

profissão de fé

Quando eu era pequeno, o meu avô, depois de uma breve passagem pelos órgãos autárquicos, fez-me prometer-lhe que nunca me meteria na política. Não me esqueci desta promessa. Mas, até agora, o tempo veio dar razão ao meu avô: depois de ver tantas pessoas a ficarem com o raciocínio domado depois de se partidarizarem (seja lá qual for o partido), concluo que apenas me posso sentir livre em participação se estiver entregue só a mim mesmo enquanto cidadão. O que, parece-me, me dá tantos direitos como deveres.

"O outro candidato tem outros colos. Estes colos sabem bem"

Não há desculpa possível para estas palavras. Santana Lopes revelou-se um mestre da vulgaridade, um caso perdido de egotismo, uma mente infantil especialista em raciocínios do tipo "sou demasiado educado para arrastá-lo para a lama, mas, se me obrigar a isso, não ponha depois as culpas em mim". Isto não é um político, é um caso médico. Quem, no seu perfeito juízo, de esquerda ou de direita, pode tolerar um homem que faz campanha política naturalizando a insinuação e o insulto sexual? Quem pode desejar-lhe um destino que não passe por deixá-lo a um canto, largando ideias desconexas, enquanto os adultos se juntam para falar de coisas sérias? Seja lá aquilo que Santana for, é algo de mau demais para ser verdade, do tipo de coisas que não se consegue explicar a quem não conheça. Não há uso para este homem.

ouçam

Não sou dado a sentimentalismos, nem se deve pensar que o que se segue é moda entre colaboradores, ou ex-colaboradores, d' A CABRA. Mas ontem estive numa sala com quatro pessoas (de uma delas não vou falar; não é por má educação, acho que ela vai compreender). Duas delas davam os últimos pormenores em projectos fotográficos a apresentar ao Concurso Jovens Criadores. Elas, e uma outra das presentes, foram o núcleo duro (duríssimo) da equipa de fotografia que eu organizei quando fui editor da mesma secção n'A CABRA. Não tenho modéstia em dizer que fiz um bom trabalho, porque me limitei a tentar transmitir as minhas noções de bom a quem queria aprender cada vez mais e melhor sobre aquilo - o pouco - que lhes podia ensinar.

Ontem, quando nos vi a todos lá e pensei que uma delas já fez várias, e óptimas, primeiras páginas para um dos maiores diários portugueses, que outra está cada vez mais perto de se tornar uma fotógrafa profissional a tempo inteiro e que outra acabou de começar no Brasil o que, espero, seja uma belíssima carreira como fotojornalista, percebi que chagar-lhes o juízo, pedir-lhes coisas irrealizáveis com os meios de que dispunham, mostrar-lhes coisas novas de que elas pudessem gostar, levá-las aos sites de fotografia que considerava melhores, aconselhar-lhes leituras, emprestar-lhes os meus livros - reparei que tudo isso acabou por ser das coisas mais belas e completas que eu alguma vez fiz. E tudo no espaço de uma pequena sala na Associação Académica de Coimbra, um espaço nulo, insignificante, com magias percebidas por quem lá esteve e que não adianta tentar explicar. O que me comove naquelas três pessoas é o orgulho que elas me permitem sentir, o meu primeiro orgulho, o contentamento de, à minha maneira pequenina e bruta, ter contribuído para que elas chegassem onde estão hoje e sentir-me presente no futuro radioso que sei que as espera. Desculpem-me, F., J. e M., por não ter coragem para vos dizer isto na cara. Sou um tipo desbocado, mas tímido, no fim de contas. Desejo-vos, sinceramente, tudo de bom.

o corpo de fernanda serrano

A nova campanha publicitária do BPI, usando a grávida Fernanda Serrano, tal como já a tinham utilizado de cabelo a encurtar ou adaptada ao estilo de uma boneca virtual, mostra algo de diferente quanto ao uso do corpo como objecto publicitário. Primeiro, os anúncios seriam inúteis se a actriz Fernanda Serrano não fosse simultaneamente a personagem pública Fernanda Serrano: trazer à lembrança o papel do BPI na sua vida não teria o mesmo efeito se não se soubesse que ela teve de cortar o cabelo para uma telenovela ou se o processo de corte, casamento e gravidez não tivesse sido acompanhado pelas revistas especializadas. Mas, para além disso, o que os anúncios mostram é que, apesar das transformações que a passagem do tempo vai operando no corpo volátil (como todos) da actriz, o BPI continua sempre como pólo de confiança inabalável e, neste caso, verdadeiramente bigger than life. Quanto à eficácia publicitária, a campanha é excelente; quanto aos sentidos implícitos, é assustadora.

o verbo de rap

Nos dois últimos posts do Gato Fedorento, Ricardo Araújo Pereira responde às objecções que O Acidental lhe colocou quanto à sua participação num jantar de apoio ao Bloco de Esquerda. Isto revela uma clara evolução em relação à concepção do comportamento ideal do humorista que caracterizou o nosso humor desde os anos 80 (ou seja, desde que o teatro de revista se perdeu, porque, a partir do 25 de Abril de 1974, perdida estava também a condição da sua mordacidade) e, principalmente, desde que Herman José marcou o andar dos tempos com a sua atitude de abstenção. R.A.P. não recusa a sua posição de cidadania para além da de entertainer e isso só é de louvar.

a vida de louçã 2

Louçã responde às críticas no Público de hoje:
Indignei-me e continuo a indignar-me quando os defensores da prisão das mulheres que abortaram acusam os defensores do respeito pelas mulheres de atentarem contra o "direito à vida". Por outras palavras, de serem cúmplices de assassinato. A criação da vida é uma responsabilidade e experiência inteiramente pessoal. Ninguém, e provavelmente ainda menos quem a vive, pode tolerar ser tratado com este desprezo infinito da acusação de homicídio pela sua opinião sobre uma lei. A vida não se discute e o que está em causa na política portuguesa é outra questão: é exclusivamente saber se a mulher deve ter o direito de fazer uma escolha sobre a sua maternidade ou se deve ser presa se abortar. Eu continuo do lado da liberdade e o meu adversário não.
Tudo compreensível, portanto.

meanings of life

Se esta é uma vaga de frio polar, compreendo porque os Pólos estão a derreter.

a vida de louçã

Julgo que se está a levar longe demais aquilo que Louçã disse a Portas no debate na Sic Notícias - o editorial de José Manuel Fernandes Eduardo Dâmaso no Público de hoje é disso exemplo - e, pior, que toda esta discussão está a cair por entre uma espiral armada por "spin doctors". A reacção de Louçã é compreensível na medida em que foi uma defesa - talvez demasiado exaltada, mas de nenhum modo chocante ou inusitada - contra a colagem injusta e, infelizmente, bastante frequente, do rótulo de "assassinos" aos defensores da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Esta foi uma técnica argumentativa usada até à exaustão por políticos de Direita contra os da Esquerda, e de nenhuma maneira serve a troca de ideias que deve pautar o debate público em democracia. Louçã desabafou contra uma ideia estúpida, ponto final. Por outro lado, a intervenção de Teixeira Lopes mostra que ele não compreendeu isto, fazendo a discussão descer ao nível da comadrice de esquina e desrespeitando a seriedade do adversário da mesma maneira que foi recusada por Louçã. O que, por sua vez, mostra que quanto mais o Bloco cresce, mais se notam as suas imperfeições.

branqueamento

Ouço uma entrevista de José Hermano Saraiva no programa Prova Oral, da Antena 3. As pessoas que telefonam dizem só se gostaram ou não de História no liceu, que o admiram muito pelos programas na televisão, blá blá blá. Ainda ninguém perguntou sobre 1969 em Coimbra, nem sobre os estudantes que foram embalados para a guerra simplesmente por quererem ser ouvidos, como Celso Cruzeiro ou Alberto Martins.

unguento


They say ev'rything can be replaced,
Yet ev'ry distance is not near.
So I remember ev'ry face
Of ev'ry man who put me here.
I see my light come shining
From the west unto the east.
Any day now, any day now,
I shall be released.

They say ev'ry man needs protection,
They say ev'ry man must fall.
Yet I swear I see my reflection
Some place so high above this wall.
I see my light come shining
From the west unto the east.
Any day now, any day now,
I shall be released.

Standing next to me in this lonely crowd,
Is a man who swears he's not to blame.
All day long I hear him shout so loud,
Crying out that he was framed.
I see my light come shining
From the west unto the east.
Any day now, any day now,
I shall be released.

a função metabloguística

A recente troca de mensagens de Nuno Guerreiro com o jornalista Paulo Dentinho mostra uma função que os blogs têm vindo lentamente a encarnar: a de filtragem da informação dada pela Comunicação Social tradicional, o que favorece uma relação mais saudável entre esta e a sociedade civil na medida em que cada uma delas passa a assumir uma determinada posição em relação à outra. Em Portugal, isto começa agora a ser notado, com os jornais a utilizarem os blogs como fonte (frequentemente sem autorização do autor ou sem cumprir o necessário dever de confirmação, o que é mau) e como se vê pelo recente caso Branquinho Lobo, iniciado pelo blog Random Precision. Não sei se já o disse, eventualmente já alguém o terá dito por mim, mas não pode haver dúvidas de que isto revela os blogs como um passo à frente indiscutível na concretização da Internet como meio livre de circulação de informação, o que chegou a estar em risco com a agonia do e-business no virar do século e os mercenários do comércio que então tomaram a Web de rompante. É por isso que esta notícia, notada por António Granado, não anuncia um mar de rosas para os bloggers. Chegou enfim a hora de intensificar o pensamento sobre Bloguética, para usar a expressão que Miguel Vale de Almeida usa na sua barra lateral.

P.S. O título deste post deixa-me insatisfeito, já que pretendo aludir à função metalinguística da linguagem na concepção de Jakobson, mas já existe a expressão "metablog" para designar um blog colectivo. Alguém quer propor uma alternativa?
A frase que mais me fez rir esta semana: Wanting to meet an author because you like his work is like wanting to meet a duck because you like pâté.

Apesar de João Pedro George desconhecer o autor, vários sites no Google atribuem-na a Margaret Atwood.
Allan Ginsberg em conversa com Margaret Mead sobre o termo "beatnik": "Our newspapers are quite corrupt in the sense that they are willing to pander any kind of vulgar taste to make a sadistic angle on a story, if they can find one, necessarily. It's the first principle in any modern journalism".
A guerra, que deveria ser uma questão entre nações, é afinal uma questiúncula entre (muito poucas) pessoas: eis o que nunca deixará de me espantar em mortes como as de Savimbi e Arafat. Se bem que, no segundo caso, dependa de mais algumas.

arte a brincar

O Metafilter chamava-lhe jogo, mas esta obra de um designer gráfico japonês chamado Wada che Nanahiro é antes uma belíssima animação interactiva.

a entrevista 2

Durante a audição, apercebo-me: a minha relutância quanto à idade adulta (tenho 24 anos) não tem a ver com problemas em assumir responsabilidades. Tem a ver com duas coisas: primeiro, o medo da substituição de um paternalismo que me dá como inconformista por outro que me dê como conformista (“pois, na tua idade é normal que se pense assim” passa a “pois, na tua idade é normal que não se queira pensar nisso”); segundo, o horizonte, que parece sempre estar cada vez mais perto.

a entrevista

Neste preciso momento, ouço uma entrevista que dei antes do Natal. Odeio, odeio isto. Não falo, obviamente, da perícia do entrevistador, Paulo Saraiva, que, descobri então, para além de radialista amador, é doutorando em Matemática (a Rádio Universidade de Coimbra tem destas coisas fantásticas). Falo de mim. Detesto ouvir-me. Luto com as palavras como se rasgasse cobertores com facas de sobremesa, não consigo desfiar um discurso corrido à primeira, gaguejo, faço silêncios embaraçosos, enrolo as opiniões em contradições e fico só, agarrado ao sentido que não soube dizer. Acima de tudo, o medo de ser uma fraude.

dois artigos

Não faz mal nenhum sentir a vertigem no horizonte da sociedade aberta. Mas para isto há uma expressão bem engraçada: "ressabianço".

GATO FEDORENTO, ENÉSIMO

Durante uma semana, vi o Dvd na casa de amigos, assim me submetendo a uma lavagem cerebral da qual eu sou vítima e verdugo em simultâneo. O disco é meu, mas, como (ainda) não tenho leitor em casa, vi e dei a ver, ri e dei a rir. Já sei sketches de cor e salteado, já tenho conversas que acabam, pensa-se nelas e não foram mais do que reproduções compulsivas de falas. O mundo pode bem desabar à minha volta, mas o Gato mia e parece que miará mais do que aquilo que o Gallo cacarejou desde 1919.

Apenas consigo encontrar uma explicação racional para tudo isto. Os Gato Fedorento conseguiram extraordinariamente encontrar as cordas mais sensíveis ou as muletas de relacionamento mais usadas entre aqueles que os vêem. Mas também conseguiram encontrar um tipo de registo, influenciado pelo humor anglo-saxónico, que já era utilizado por algumas pessoas no seu modo íntimo e coloquial de gracejar e achar graça. Através de um fascinante fenómeno de triangulação, eles deixam-nos sem nada para dizer, pois de tal maneira conseguiram mostrar-nos o risível naquilo que dizíamos que falar de modo normal já não é possível sem lembrar algo do Gato. Pelo cerco e pelo esgotamento, estes quatro tipos conseguiram ou conseguirão mudar, pelo menos nalguma (não pequena) medida, os padrões comunicacionais e relacionais dos portugueses.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

(no computador, uma pasta que não abria)

Poesia (Não responde)

Recebi o primeiro cheque. Inscrevi-me nas Finanças. Um amigo meu vai-se casar. Alguém me disse "tens que te habituar a crescer, já não és nenhum puto".

(por favor, não me roubem o Grito)

meanings of life

Para casa, num autocarro, um saco de compras enlaçado às pernas e o trabalho sobre os joelhos. Não há vento.
Seabra Santos disse que todos os projectos previstos representam um investimento de 4,7 milhões por ano, verba resultante, na sua totalidade, das propinas pagas pelos estudantes da universidade.
Se os actos corresponderem às palavras, esta é uma boa notícia. No entanto, pode sempre perguntar-se para onde vai o resto do dinheiro amealhado com a subida da propina anual para mais do dobro do salário mínimo. Se servir para pagar despesas correntes da Universidade, e é bem provável que assim seja, a boa notícia mostra-se mero engodo.

a europa, as bibliotecas e o empréstimo gratuito 5

Para esclarecer afirmações anteriores:

Não defendo de modo nenhum uma servidão da arte em geral, e da literatura em particular, a um qualquer programa ou conjuntura político-social! Mas aquilo que o Francisco, o Luís, eu próprio (por enquanto, em muito menor medida), aquilo que nós fazemos com liberdade e independência, é algo com especial importância pelo simples facto de o fazermos, na medida em que, se quiserem, salvaguarda esse mesmo espaço de liberdade. É o valor desse papel social, somado à dificuldade com que é cumprido, que alimenta a justeza da manutenção de uma política fiscal mais favorável aos autores. É por ser um argumento que fica do lado dos autores que não me deixo estar nas tintas para ele (não para quando escrevo, mas para quando tiver que me defender enquanto alguém que escreve).

a europa, as bibliotecas e o empréstimo gratuito 4

Apenas duas notas breves sobre a continuação do debate.

Primeiro, o e-mail de João Branco chama a atenção para a fragilidade da posição do autor, problema que este blog (e o próprio Aviz) já tratou. É algo que se poderia resolver através da fixação de contratos-tipo, a conseguir por acordo entre as entidades representativas de autores e editores e, nomeadamente, dos livreiros (o que poderia até ser acompanhado por uma definição de escalões de remuneração, como faz a Writers Guild of America). Outros modos de superação da desigualdade no sistema serão o aproveitamento da Internet, principalmente como meio de comercialização dos livros pelos próprios autores (o que impede um autor de vender as suas obras directamente e a um menor preço através do seu blog pessoal, contratando simultaneamente com uma editora a venda posterior através de meios tradicionais?), e a criação de estruturas colectivas de autores (por exemplo, cooperativas) que reduzam o número de intermediários até ao público.

Já me custa mais a aceitar a posição de Luís Carmelo, principalmente quando levada às suas última consequências (não defendo, obviamente, um enfraquecimento dos direitos morais, mínimo imprescindível e quase exigível pelas regras do bom senso), devido a uma especificidade muito própria das obras ensaísticas naquilo que tem sido referido nesta discussão como a responsabilidade dos autores no progresso cultural. É o que torna o sistema Creative Commons interessante, porque ele dá um passo à frente naquilo que é a concepção do direito de autor: aqui, o direito serve menos para o autor se proteger do que para permitir que novo conhecimento possa ser livremente criado a partir das suas obras. É um princípio interessante, principalmente para evitar situações em que um autor que cede 90% do preço final do livro que criou ainda tem de suportar preguiças, incompetências ou meras incapacidades editoriais na distribuição e publicidade.

do humor em portugal

Um e-mail que um amigo me enviou há poucas horas continha uma anedota. Nada de mais, apenas uma anedota engraçada q.b., que me deu a sensação de "acho que já ouvi, mas". No entanto, fez-me reflectir sobre o humor em Portugal.

Não penso no Gato Fedorento (e nem me vou dar ao trabalho de fazer o link...). Penso no Fernando Rocha, nos Malucos do Riso, nos Batanetes e em todos os demais etceteras vulgares e brejeiros, que, na minha perspectiva, radicam no lendário "Cantinflas Português". A razão por que este tipo de humor tem tanto sucesso, frustrando quem tenta fazer algo de diferente e mesmo engolindo o próprio formato de stand-up que Pedro Tochas (que se manteve invicto), principalmente, e Nilton (que não poderá dizer o mesmo) e poucos mais, como as Produçóes Fictícias, trouxeram para cá, terá sem dúvida a ver com a forma da anedota, diferente da joke anglo-saxónica que está na base do stand-up. A anedota é, por natureza, exagerada, impossível, foge da realidade em vez de se construir com base nela, e por isso muito dada a temas sexuais ou de sugestão sexual. É por isso que, no dia seguinte a acontecimentos traumáticos, circulam já em Portugal, pujantes e viçosas, anedotas em tom negro sobre esses mesmos acontecimentos. Servirão uma necessidade escapista dos portugueses, mas, para fazer psicografias da nossa alma, não li suficiente Eduardo Lourenço. Seja como for, o primeiro ponto está assente: a anedota é um género predilecto em Portugal e o público prefere quem a saiba servir em formato já conhecido e apreciado.

Se o primeiro ponto tem a ver com um formato, o segundo terá a ver com o modo como a veia humorística (é lugar comum, mas não me ocorre outra expressão) existe nos portugueses. Desprovidos de uma atitude, como o witt inglês, criamos momentos. As pessoas riem-se, na generalidade das vezes, contando anedotas umas às outras e os momentos em que isso sucede ganham mesmo uma certa personalidade, quase como um "género de tempo".

(recordo-me da escola: pedíamos aos professores que a centésima aula de uma disciplina fosse "de anedotas", de modo a dar largas a uma certa expansividade teatral que, então, só sabíamos manifestar assim)

Por aqui se explica também a tendência para o humor que temos hoje em Portugal. Em muitos espectadores, a apreciação corresponde a um exercício de memorização de anedotas, com um intuito relacional óbvio e interessante. As séries uniformes de palavrões que Fernando Rocha juntou ou os chavões debitados nos Malucos dos Riso servem a muita gente para olear o trato social, desbloquear conversas e, nos casos mais deprimentes, alimentar a auto-estima. Não vou dizer que isso só revela uma necessidade urgente de educar o gosto do público, embora essa seja uma dimensão problemática da situação. Mas certamente explica algo aos autores sobre o público para quem trabalham e, por isso, deve ser tomado em conta por eles.

meanings of life

é como se errasse.
Trinta minutos antes da meia-noite, as luzes foram-se abaixo e assim se deixaram ficar durante uma hora. Não vi o que entrou quando entrou o ano novo.
Questionadas sobre se preferiam a caricatura do machão ou a do maricas, as donas de casa portuguesas e os seus maridos escolheram a última. Isso deve dar que pensar.
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