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o jerónimo

Fraquinho nas historietas, bom nas entrevistas.

a doença de francisca moreira, 3

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O momento em que pusemos ponto final a todas aquelas tropelias de Francisca Moreira veio a revelar-se pela caçoada ou, como diria o Michäelis, o deboche. Francisca, no meio do delírio, riu-se da incapacidade de Jerónimo para lhe trocar a peúga (que, já agora, estava rota) por Barnabé e berrou "carneiro larilas, tu precisas é de um english course New York!". Apanhando-lhe a incorrecção gramatical, paralisámos. Ela própria apercebera-se de que algo não estava bem, porque levou a mão à boca. Jerónimo apontou-lhe o dedo (que não é nada de carneiro, é dedo vigoroso, majestático), tal como todos nós, em roda viva de vergonha. Francisca começou a chorar e a balbuciar "mas... eu... english course New York! Ai! Não! English... english... english course New York! Ahhhhhhh!". Ela nunca mais gingou o cu com Pulp e, infelizmente, a sua reputação relativamente ao domínio do inglês não recuperou.

a doença de francisca moreira, 2

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Lidar com uma Francisca Moreira naquele estado ainda mais catatónico do que o costume, ou seja, foi mais do que um mero choque: foi uma lição de vida. Quando a estávamos a arrastar de sala em sala, procurando a cura miraculosa para a cabeça em polpa, Francisca cansou-se e, entre gritos estranhos como "Tirem essa 7Up da minha frente!", despiu-se enquanto cantava uma canção que eu desconhecia: "Deixa passar a charanga tropical, lalala, lalala", e, pumba, tirava uma peça de roupa. Para quem nunca viu uma mulher nua, Jerónimo portou-se até bastante bem: reparando que havia uma loja de roupa mesmo ali ao lado, não lhe foi problema suprir os loucos gritos de Francisca. Ela dizia "dêem-me urban clothing", ele trazia uns sapatos urbanos; ela dizia "dêem-me street clothing" ele trazia um casaco para andar na rua; ela dizia "dêem-me funky clothing, ele trazia-lhe uma peúga suja (a que ele dera o nome de Barnabé). Francisca riu-se muito com o guarda-roupa novo, mas, ainda assim, estava mais difícil de apanhar do que uma Lassie drogada.

a doença de francisca moreira, 1

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Um dia, Francisca Moreira apareceu-nos a falar insistentemente em inglês e nós soubemos então que era o momento de olharmos uns para os outros, assentarmos com a cabeça e dizer "Já era motivo para saber: tanto Pulp na cabeça faz da cabeça uma polpa". Então, muito mansinhos, perguntámos a Francisca se não queria uns spa days ou até uma Hot Air Balloon Ride (Francisca vive há anos com um gato que é nitidamente paciente terminal de flatulência, portanto, está habituada a placar elementos gasosos com a cara). Mas nunca devíamos tê-la deixado entrar naquela Recording Studio Experience. Com óculos de massa na cara e um cuzinho gingão, Francisca Moreira padeceu então de recaída.

o telemóvel de francisca moreira

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Francisca Moreira passou a vida inteira à procura de um Nokia N96. Nokia N96 para aqui, Nokia N96 para ali, já ninguém a conseguia aturar com tanto cochicho (um dia, apanhei Jerónimo a desviar-se da conversa com tópicos de electromecânica - já a situação estava neste ponto de cozedura!). Mas o caldo não ficou entornado por aí, porque um amigo colorido (marrom) de Francisca viu-se subitamente com dois telemóveis na mão, um da nova empresa e outro pessoal, para o qual já não dava uso. E não é que o telemóvel era - adivinharam - um Jerónimo, perdão, um Nokia N96? Muitos ais Francisca soltou então, contente, mas também apreensiva pelo futuro.

os efeitos

Ainda sobre o Efeito Borboleta e outras histórias, duas coisas curiosas aconteceram aqui.

Primeiro, é sempre uma surpresa boa ver, mesmo junto ao meu nome, o do amigo João Sousa André, antigo comparsa de séries e outros bês.

Segundo, as divisões no meu texto devem-se ao facto de, como é habitual, ter lido distraidamente as regras do passatempo e, por isso, ter acabado por editar um texto que era maior e indivisível. Não fiquei insatisfeito com o resultado final, mas, para prova e memória futura, aqui o deixo.

OS VOOS DOS MOSCARDOS

Um padre desliga a box da Tv Cabo, detonando uma bomba num jogo de futebol.
Um ciclista desconhecido procura o seu nome no Google, alimentando um ladrão de Moçambique.
Se Santana abre uma torneira, Durão derrama uma lágrima.
Um escritor de romances de amor é assaltado porque Francisco José Viegas se descalçou para sentir a textura de uma areia meridional nos pés.
Quando Conan O'Brien sobe para a sua mesa, uma sexagenária decide que vai recomeçar a fumar.
Eu toco uma campainha em Portugal e assim mato Kim Jong-il.
"Quem é que ele pensa que é?", diz uma vendedora de bilhetes em Santa Apolónia, e um homem dá um beijo na testa da filha gaditana. Chegou, por fim, essa hora.
A actriz olhou só mais uma vez para a Broadway, mas não deixou de haver tempestade no falso deserto de sal dos Andes.
Mãe, toca o orvalho no quintal só mais uma manhã - faz desaparecer o cocó de cão das ruas da minha cidade.
Tony Hoagland pensa em Frank O'Hara. Escreve, de uma assentada, três poemas. O mundo ganha uma hora de sono.
Eu aprendi a dizer "name-dropping" e, ups, duzentos operários fabris no desemprego!
O músico diz "não foi para isto que se fez o 25 de Abril". Nesse momento, o cocó de cão reaparece nas ruas da minha cidade.
Uma baleia engole um pescador indonésio 33 minutos depois de um primo distante (do homem, não da baleia) se imolar pelo fogo numa aldeia palestiniana.
Um homem chamado Joseph Grand decidiu imitar o seu homónimo do livro de Camus e pensa na frase que reescreverá no resto da vida porque, num cinema abandonado de Bombaim, um rapaz e uma rapariga beijam-se e choram ao mesmo tempo.
O padre liga novamente a box da Tv Cabo, impedindo que algo de interessante aconteça até 2011.
Em 2011, o mundo acaba, mas outro na fila logo lhe toma a vez.

Os lançamentos



Amanhã, não deixemos de estar na Casa Fernando Pessoa para o lançamento do Efeito Borboleta e outras histórias do José Mário Silva.



E fiquemos atentos às data para as apresentações de Mapa, o novo livro de poesia do manuel a. domingos.

o post sem interesse para muita gente

Disse aqui que escrevia cada vez mais em Dark Room. Mal sabia eu que, duas semanas depois, encontraria o editor de texto de uma vida: o Q10. Tal como o Dark Room, só dá para gravar os ficheiros em .txt, mas é leve, ocupa o ecrã todo para evitar distracções (todas as cores são modificáveis; por exemplo, eu uso Traveling Typewriter branca sobre fundo negro) e - é por isto que é o maior - inclui um contador permanente das palavras, páginas e caracteres que se vão escrevendo. Amigo jornalista, evita o momento fatídico do clique em que descobres que ainda te espera muito corte e costura; amigo escritor, reduz o stress nos teus próximos concursos. Usa Q10, sê melhor do que és.

E o Q10 tem ainda uma particularidade pouco vista: é software grátis e bom sem versões para Linux e Mac.

a noite

Enquanto ele tem um ataque espasmódico, algures em Lisboa um taxista chora, agarrado a um papel e a um sonho de nunca mais. Nas noites, são iguais: um homem que transporta no espaço, outro que se transporta no tempo. De resto, mantenho o silêncio: assim o merecem estes corredores de casa amarela.

o perfil

Eu sou dos tais que preferem Saramago a Lobo Antunes. Que não gostam do iTunes. Que desconfiam da moda. Que não saem à noite. Que passam tempo a mais na Internet. Que se fecham em si mesmos nas festas. Que se fecham em si mesmos, ponto final. Que não conhecem muita gente. Que gostam de piadas secas, piadas elaboradas, piadas que só alguns percebem. Que não têm noção do conveniente. Que põem a pata na poça. Que conhecem coisas novas a mais. Que conhecem coisas novas a menos. Que não estão bem em sítio nenhum. Que sentem conseguir sempre menos do que pretendiam. Que têm expectativas mesmo muito baixas. Que não conseguem fazer coincidir os seus momentos de riso e de seriedade com os dos outros. Que são incapazes de dizer exactamente aquilo que pensam e que depois têm de arcar com as consequências.

Eu sou dos tais que estão fodidos.

uma litografia de Escher

Os senhores que sabem o que convém aos cidadãos da Europa sabem que os cidadãos da Europa não sabem o que convém aos cidadãos da Europa.

Mas, na verdade, os cidadãos da Europa sabem o que convém aos senhores que sabem o que convém aos cidadãos da Europa.

E, sorrindo, dão-lhes negas.

a luta pelas 60 horas de trabalho

Giro, giro é que enquanto toda a gente anda a comer caracóis e a falar da raça do Cavaco e do Europeu de futebol, a União Europeia aprova esticar a semana de trabalho para além das 48 horas semanais que tem há 91 anos.
Com a nova directiva de tempo de trabalho, consagra-se a "free choice", a liberdade de escolha do trabalhador no que toca à semana de trabalho. Os Estados-membros poderão modificar a sua legislação e permitir que os trabalhadores cheguem a acordos individuais com as entidades patronais sobre a duração do dia de trabalho, até um máximo de 60 horas semanais no geral e de 65 em casos particulares, como os médicos. Durante três meses, este tempo é calculado em média, o que significa que as semanas poderão alcançar as 78 horas".
Será que alguém terá um dia o bom senso de pensar que a saída legislativa para um problema não é o contrário da sua solução?

os jogadores

Sempre que passo os olhos por fotografias, vídeos, memórias - RTP ou não - dos jogadores de futebol do antigamente dos 80 e inícios dos 90, não consigo deixar de pensar que estes tipos dariam uma coça monumental a estes metrossexuais de polichinelo. Aliás, pouca gente sabe que João Alves usava luvas para esconder as marcas da meia hora diária a dar socos em paredes de granito sólido. Não lhe doía, mas feria a vista. O bigode do Chalana servia o mesmo efeito.

o milagre

SUZANNE
Are you staying?

MATT
Yeah.

SUZANNE
I go home when you go home.

MATT
I may not go home.

SUZANNE
You should go home a little.

MATT
No, what we're looking for is a 4: 00 a. m. miracle.

SUZANNE
Is that what it sounds like?

MATT
An unexplainable and extraordinary event that happens around 4: 00 a. m.

SUZANNE
Yeah?

MATT
Sleep deprivation erodes your internal censors and allows you to come out of yourself.

SUZANNE
Should I order you food?

MATT
What are you eating?

SUZANNE
A veggie burger.

MATT
Don't do that. If you want vegetables, go ahead, but don't eat pretend food. That's prop food you're eating.

SUZANNE
I'm trying to lose ten pounds.

MATT
Well, don't do that either.

a escritura

E José aproximou-se de Lucas e, num tom conspícuo, disse-lhe "teme o homem que toca o oboé. Ele sabe mais do que aparenta e lê poesia no sangue que é teu".

Lucas escondeu-se.

a pergunta

"E então? Agora vais ficar sentado a decantar a pouca memória que foste angariando por aí enquanto o mundo gira sem parar e sem ser à tua volta?", perguntou ela durante uma sessão do ginásio.

a lengalenga...

...que eu e a Ana inventámos da última vez que comemos no indiano.

Bebé babada,
Branca babanca
pede bebinka,
come baclava
e bebe Bacardi
no Baga-Baga.


Viver na Graça transparece pelo último verso. Discordámos quanto ao primeiro - ela acha que não faz sentido. Alguém se pronuncia?

a dúvida

Depois de um fim-de-semana a ver o Studio 60 on the Sunset Strip até ao fim, não consigo deixar de pensar como é que esta série foi cancelada depois de uma temporada. No entretanto, a Anatomia de Grey já vai na quinta. Iupi.

a galicia canibal

Ficou-me uma coisa da infância, que foi alguns versos desta canção galega de 1987. Durante anos, andei por aí a cantarolar "fai un sol do carallo" e "a matanza do porco" sem lembrar mais nada. Hoje, procurei o vídeo e descobri que o tom é muito mais Talking Heads (pensava que fosse Sex Pistols) e que a letra é absolutamente delirante. Fiquem lá com Galicia Canibal, d'Os Resentidos, e uma tradução como brinde.


Faz um sol do caralho.
Com isto da movida
há para aí muito ye-yé
que, de noite e de dia,
usa óculos de sol:
Faz um sol do caralho!

A matança do porco
A matança do porco.-
O berreiro e o conjunto de berros
de um porco quando o vão matar.
São Martinho oficial
de Monforte ao Nepal,
o magusto para Agosto,
safaris do porco,
filhós de sangue,
Galiza embutida:
Faz um sol do caralho!
Galiza canibal!

A Etiópia tem fome
A Etiópia tem fome.-
Um desempregado ocidental
segura um filete.
Um negro deitado,
o negro não lhe chega,
arrasta a pança.
O desempregado ocidental
segura o filete;
o desempregado altivo,
o negro não lhe chega.
Doa os teus rins:
um rim ao lanche.
Doa os teus rins:
outro rim ao jantar.

a costureira

as cócegas

Os americanos dizem muito: titilation. Suponho que poderíamos usar o equivalente titilação. Mas nunca será o mesmo. 22 anos depois, o modo como o termo foi usado aqui ainda diz muito sobre o que somos e onde vivemos. Tudo o que escrevi hoje fica assim explicado.

o rancor

Não se consegue apagar gentilmente a memória. A culpa é do rancor.

a viagem

Leio cada vez menos e cada vez mais depressa. Perco ganga, fico de mãos limpas. Não devo nada.

Foi importante ler Vonnegut e conhecer pessoas. Escrevo muito nisto, distrai-me menos. Produção e consumo, tenho-os ambos incompletos. Não sei aonde devo chegar, vou-me orientando. Cada vez dou menos importância às coisas, mas isso é profundamente egoísta - não o ser, quero dizer.

E é preciso prestar muita atenção a isto.

a espera

Consegui chegar a um momento em que ganho a vida a escrever e não me queixo. Faço mais do que isso também - não me queixo. Mas desconheço se sobra de mim algo que valha a pena.

Olho à volta e penso que, sim, quase tudo é bijuteria. E o que me preocupa mais não é isso, é pensar se conseguiria (se conseguiríamos) encontrar o caminho uma vez afastadas as cortinas.

Sendo que isto, obviamente, já nada tem a ver comigo. Estou cansado. Sou chato. Há coisas menos claras.

o dia e a reforma

Acho que passei hoje pela obsessão deste homem. Descia o Conde Redondo enquanto um taxista me mostrava um papel com todos os descontos que fizera para a Segurança Social. O taxista vai receber pouco mais de 300 euros. Não sei quantos euros estão implicados na vida de Ana Moreira.

o sitiado

Escrevi sobre este lugar. Nunca lá fui.
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