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"Anything Else" (für Raúl)


A minha história com o Woody Allen é a de só ter visto o meu filme preferido dele – "Stardust Memories" – uma vez, porque perdi a cassete onde o tinha gravado. Ainda assim, é curioso como, no curso de filmes anuais a que o homem nos habituou, os momentos de génio pontuam também com regularidade depois de filmes medianos (experiências, talvez). Assim, se "Vigaristas de Bairro" ou "A Maldição do Escorpião de Jade" não foram das suas coisas mais inspiradas, "Holywood Ending" já mostrava uma melhoria de forma que, parece-me, desemboca neste "Anything Else", um claro avanço na maneira como se deve compreender a concepção da auto-representação da figura de Allen como elemento fundamental da sua filmografia. Por outras palavras, em "Anything Else" Allen baralha as cartas como não fazia desde "Deconstructing Harry", complicando cada vez mais o jogo de espelhos entre a sua persona e o verdadeiro Allen e introduzindo-lhe as noções de idade e de sageza.

Jason Biggs (que, não sendo um Laurence Olivier, não deixa de ser mais um claro exemplo de que a qualidade dos actores e a dos projectos em que acabam por ser reconhecidos são coisas completamente diferentes) é, para todos os efeitos, um jovem Woody Allen que ouve, questiona e interroga aquilo que o velho Allen lhe diz. O Allen velho do agora ressuscita o novo Allen que deixou no passado – não deixa de ser curioso que ambas as personagens sejam escritores de comédia, ainda por cima depois do afamado regresso de Allen ao tom cómico dos primeiros filmes que se disse haver n’ "A Maldição..." e "Vigaristas...". Parafraseando Gena Rowlands em "Opening Night", se a idade importa que a nossa segunda pessoa deixe de esperar e tome o lugar da primeira que deixamos de ser, Biggs será neste filme o primeiro homem de que o actual Allen é o segundo. Ora, qual deles é mais personagem = qual deles é mais representação = qual deles fica mais perto daquilo que Allen fez de si mesmo nos filmes ou do que Allen é na realidade? A encenação desse diálogo entre dois "eus" separados por uma vida faz de "Anything Else" uma das obras mais extraordinariamente íntimas dos últimos tempos e, mesmo que isso implique haver sempre alguém que pejorativamente aponte o dedo e diga "Narciso!", não afasta os diálogos com piada. Allen conseguiu fazer do seu cinema lugar de reflexão sobre as velhas questões fundamentais (o ser, a passagem do tempo, o amor) sem abdicar da comunicação. É esse... esse classicismo de atitude que me fascina no cinema de inspiração americana e que nem sempre me fascina no de inspiração europeia (sendo que isto na verdade são coisas que não existem, pois o cinema americano foi construído pelos europeus na América que, por sua vez, inspiraram os europeus da Europa e assim por diante) - o não se esquecerem da noção de movie, de good movie, que não tem de ser um escravo dos gostos, mas que não esquece a sua vocação finalística (que se cumpre) na sala de cinema.

Duas coisas a apontar: é chato (embora talvez seja inevitável, pelo modo como os papéis são escritos ou como o próprio realizador Allen os quer representados) que Jason Biggs, tal como Kenneth Branagh em "Celebrity", não consiga evitar, com marcação variável, os maneirismos do actor Allen; gostaria de ter visto Allen e Danny de Vito a contracenar durante mais tempo. Tirando isto, "Anything Else" é pura obra-prima.

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