Este blog está encerrado.

O autor continua a publicar em http://jvnande.com.

Se quiser ler uma selecção de textos, clique aqui.

a censura

Graças à dica do Mário Almeida, vim a descobrir que o meu blog é censurado na China e, como tal, não pode ser acedido pelos cibernautas de lá. Sobre a China, em quase quatro anos, escrevi duas vezes e não sei se a atenção dos censores não terá a ver com o facto de numa delas criticar a política do google.cn. É possível.

Obviamente, este blog nunca seria muito lido na China - e vai daí... já se viram coisas mais estranhas (graças a uma única foto, recebo hoje mais visitas dos EUA do que de Portugal), mas pronto. Digamos o razoável: não seria muito lido. Mas não é enquanto blogger que falo, é enquanto cidadão de uma democracia. O Great Firewall Of China tem como grande vantagem lembrar-nos do que é a limitação estatal e sistemática da liberdade de expressão, porque faz-nos senti-la ao nível pessoal. E o que me custa mais é que ainda haja para quem a liberdade de expressão seja uma liberdade soft. Como se não houvesse gente a ganhar dinheiro com o que escreve e diz. Como se não houvesse quem se sustentasse com visitas ao seu site e cliques em Google Ads.

Em 2006, tive o prazer de conviver com um jovem chinês, que estudava e vivia há quatro anos em Inglaterra. Fiquei espantado com a dificuldade que ele tinha a admitir que a China era uma ditadura e que as eleições lá não eram verdadeiramente livres. Ele, um tipo novo que vivia fora, não o conseguia fazer. Obviamente, foi-lhe ensinado o medo de falar. De uma maneira perversa, é honroso saber que o professor desse saber pérfido não gosta de nós.

o discurso

Li o discurso de aceitação de candidatura do Barack Obama e admito que fez lágrimas jorrarem do meu coração duro de pessoa a quem pedem sempre que parta as pernas das santolas para que não escapem da cozedura. E o brilhantismo de Obama (e de quem lhe escreve os discursos, que, curiosamente, é homónimo do realizador de Iron Man) ressalta bem neste parágrafo:
Somos um país melhor do que aquele em que um homem no Indiana tem de empacotar o equipamento em que trabalhou 20 anos, vê-lo ser enviado para a China e depois se engasga de comoção a explicar como se sentiu um falhanço quando foi para casa contar à família.
Reparem que ele podia ter dito simpelsmente algo como "Nem mais um trabalhado despedido por deslocalização das fábricas!", mas a tónica é outra. Obama acentua o pessoal - o subtexto não é "ninguém merece a pobreza", mas sim "ninguém merece este sentimento de infelicidade".

Eu, que só proporia Prozac grátis ao trabalhador, admito que Obama perceba mais disto.

a lição de escrita criativa de kurt vonnegut

Primeira regra: não usem o ponto e vírgula. É um travesti hermafrodita que não representa coisa nenhuma. Tudo o que faz é mostrar que andaram na faculdade.
d' Um Homem Sem Pátria - Memórias da América de George W. Bush, Julho 2006, Tinta da China.

os red hot chili peppers

Os Red Hot Chili Peppers são uma das bandas que não fui deixando de ouvir ao longo dos tempos (se bem que não tenha ouvido tudo, nem nada que se pareça - sou assim, demoro anos enquanto vou tirando as peles às coisas). Há uma razão geracional: a minha década de adolescência e primeira juventude, a década que me informou uma concepção do mundo, foi a de 90 e eu acho que os Peppers passaram por ela da mesma maneira. Da esperança inicial (queda do Muro, fim da Guerra Fria), fomos levando coça (Iraque, Jugoslávia, terrorismo, Terceira Via, fim da História, X-Files e conspirações, filmes-catástrofe) até aterrarmos no novo século em confusão total.

Assim, se em "Suck My Kiss" ("Blood Sugar Sex Magik", 1991), Anthony Kiedis cantava a recusa do social face à circunstância de se bastar a si próprio (I am what I am, most motherfuckers don't give a damn), precisando apenas de alguém com quem partilhar o sexo ("Aw baby, think you can? Be my girl, I'll be your man. (...) Aw, baby, please be there, suck my kiss, cut me my share"), em "Californication" ("Californication", 1999) a desilusão com o mundo exterior já é tão grande que já nem mesmo o sonho é incorrupto ("Psychic spies from China try to steal your mind's elation, little girls from Sweden dream of silver screen quotations, and if you want these kind of dreams it's Californication"). Ou seja, o espaço do eu, que era de escape, também passa a estar contaminado pelo artifício e pela impureza - passa a ser parte do problema, em vez de sê-lo da solução. A rebeldia e a chama de 1991 (Hit me, you can't hurt me, suck my kiss! Kiss me, please, pervert me, stick with this! Is she talking dirty? Give to me sweet sacred bliss, your mouth was made to suck my kiss!) é melancolia e absoluta falta de esperança em 1999 ("Marry me girl, be my fairy to the world, be my very own constellation. A teenage bride with a baby inside getting high on information. And buy me a star on the boulevard, it's Californication") . E Kiedis, que em 1991 era ser do presente, assume-se como definitivo ser do passado quando se dirige a Kurt Cobain ("Space may be the final frontier, but it's made in a Hollywood basement. Cobain, can you hear the spheres singing songs off station to station? And Alderon's not far away, it's Californication").

Tenho ouvido estas duas músicas bastante. Recordo-me de, quando tinha uma banda de garagem, querermos imitar o som de testosterona dos Peppers. Recordo-me de, no intervalo de locubrações universitárias, ver o vídeo de Californication, um jogo de computador que terminava com o encontro entre os elementos da banda, a sorrirem, como que dizendo "conseguimos, estamos cá". E penso em vê-los, conscientes e alegres caricaturas deles próprios , a tocarem "Dani California" nos ecrãs do Metro de Lisboa. Na verdade, muito mudou.

o google.cn

Exactamente por ter feito muito bem em negar informação às instâncias governamentais, é que o Google fez muito mal em aceder criar um Google China que censura informação inconveniente aos ditames políticos de Pequim. O argumento de que o novo serviço ajudará, ainda assim, o incremento da circulação de informação não é claro e soa demasiado a desculpa. Entrar no mercado chinês é, para o Google de hoje, aproveitar uma oportunidade, é certo, mas fazê-lo violando o imperativo moral que a empresa se auto-impôs aquando da sua entrada no mercado bolsista ("do no evil") significa uma cobiça que pode tornar-se injustificável (o melhor modo de definir a situação está no título deste post). E de pouco adianta dizer que houve muita discussão interna e que se optou pelo mal menor: de boas intenções está o inferno cheio, e em negócios de alto nível não há boas intenções.
« Home | Próximo »
| Próximo »
| Próximo »
| Próximo »
| Próximo »
| Próximo »
| Próximo »
| Próximo »
| Próximo »
| Próximo »


jorge vaz nande | homepage | del.icio.us | bloglines | facebook | e-mail | ligações |

Novembro 2003 Dezembro 2003 Janeiro 2004 Fevereiro 2004 Março 2004 Abril 2004 Maio 2004 Junho 2004 Julho 2004 Agosto 2004 Setembro 2004 Outubro 2004 Novembro 2004 Dezembro 2004 Janeiro 2005 Fevereiro 2005 Março 2005 Abril 2005 Maio 2005 Junho 2005 Julho 2005 Agosto 2005 Setembro 2005 Outubro 2005 Novembro 2005 Dezembro 2005 Janeiro 2006 Fevereiro 2006 Março 2006 Abril 2006 Maio 2006 Junho 2006 Julho 2006 Agosto 2006 Setembro 2006 Outubro 2006 Novembro 2006 Dezembro 2006 Janeiro 2007 Fevereiro 2007 Março 2007 Abril 2007 Maio 2007 Junho 2007 Julho 2007 Agosto 2007 Setembro 2007 Outubro 2007 Novembro 2007 Dezembro 2007 Janeiro 2008 Fevereiro 2008 Março 2008 Abril 2008 Maio 2008 Junho 2008 Julho 2008 Agosto 2008 Setembro 2008 Outubro 2008 Janeiro 2009 Fevereiro 2009 Março 2009 Maio 2009 Junho 2009 Julho 2009 Agosto 2009