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Nos últimos dois dia, revi dois biopics e, com eles, uma série de sensações. Acho que dizer história de sensações será mais apropriado. A ver.

Já gostei menos de "Amadeus", de Milos Forman. A gravação que tenho ainda é do tempo em que um filme bom à quarta-feira (passou na "Lotação Esgotada", antiga rubrica do canal 1) podia ser alvo de um patrocínio especial por parte da Galp. Ou melhor, em que passar um filme podia ser um "happening" televisivo. É verdade, não resisti a espreitar aqueles anúncios publicitários antigos, não só o do Passport Scotch a preto e verde em que um homem e uma mulher percorrem uma data de espaços até se encontrarem - nunca mais nada me fez mudar tão rapidamente de canal -, mas também pequenas jóias, quer para o bem (o anúncio ao perfume Trésor, com Isabella Rosselini a fazer o sorriso mais bonito que alguma vez se fez na moda), quer para o mal (a pastelada vídeo da revista TV Guia).

Seja como for. Nessa altura, eu andava no ciclo preparatório e vi "Amadeus" porque gostava do riso do Tom Hulce e porque Mozart era mais rock' n' roll do que maçonaria. Hoje: a intriga palaciana já não me importa muito. Aliás, vejo que a história da morte é secundária, Mozart é secundário (isso já o sabia, mas não pelas razões de agora).

Ou seja: Salieri, que começa por tentar suicidar-se e acaba abençoando todos os medíocres do mundo como seu padrinho, não existe por ser um assassino, como eu julgava, mas por ser o exemplo de algo ou alguém num nível intermédio entre a humanidade e deus. Salieri como a aspiração a ser divino ou o homem que descobre deus num mundo pagão. Na verdade, a religião não aparece por mais lado nenhum, ela entra no filme só através dele. No filme, existem Salieri e Deus, tudo o resto são fantoches ou peças num jogo, numa tragédia que Salieri, enlouquecido pela sua "hybris", perde. Mais grego do que americano - ou seja, um clássico? Quem sou eu para dizer? Nem por isso, mas também, ou melhor, o filme aspira a sê-lo, tal como Salieri aspira a ser o que Mozart é e Mozart não se chega a completar, pois morre antes de concluir o Requiem para si mesmo. O filme deixa-se ficar atrás de um modelo, de uma forma reconhecível, recusa-se a encaixar completamente no molde em direcção ao qual se dirige porque sabe que fala do falhanço, da insuficiência do homem, e recusa-se a ser mais perfeito do que aquilo que contém. Enquanto biopic, de um realizador que se tem especializado em fazê-los, será talvez o mais perfeito que já vi.

(e serviu-me para compreender o meu fascínio antigo por qualquer coisa que se relacione com Praga, que só pude, aliás, finalmente visitar neste Verão: é ela a ser filmada em vez de Viena; ficou-me, sem eu saber, encravada na memória desde miúdo)

"Chaplin", de Richard Attenborough (que também realizou "Gandhi"), é uma obra menor e, se é que se pode dizer, muito menos envolvente do que a de Forman. Porém, há algo muito interessante neste filme; mais do que o modo como repesca e integra em si mesmo elementos da obra do retratado (através de versões de músicas e da adopção de marcas visuais típicas, como as perseguições), o que em si mesmo não é excepcionalmente original, é o modo como ele consegue que os seus momentos altos sejam os momentos realmente de Chaplin. O filme ganha (e sabe ganhar) profundidade quando mostra excertos, quer originais, quer reinterpretados, dos filmes de Chaplin. E o seu final - sim, apesar de pejado de sentimentalismo burguês, apesar de ser uma manipulação descaradamente hollywoodesca dos sentimentos do espectador, apesar de nada acrescentar e ficar muito aquém do de "Cinema Paraíso" no que toca à homenagem à arte cinematográfica -, o seu final, dizia, não deixa de ser um comovente momento... de quê? Fundamentalmente, de memória enquanto intensa experiência de vida.

P.S. Falava há dias da sensação de "de onde é que conheço esta cara". Pois bem, em "Amadeus", Cynthia Nixon, a advogada n' "O Sexo e a Cidade", é uma humilde e nada sofisticada criadinha. Deliciosa, perdão, delicioso.

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