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O consumidor de cultura



No ar, a Patti Smith, do you know how to pony like bony maroney.

Na mesa, a capa do "Horses", rapinado ontem à noite na sua inteireza, música, capa e letras. A fotografia, descobri ontem, é do Robert Mapplethorpe. E a verdade é que copiar mp3 da Internet faz com que me envolva muito mais com o disco do que se me limitasse a comprá-lo. Ainda para mais quando a largura de banda não é muita, o que faz de cada canção uma apetitosa conquista.

Não deixo de sentir uma pequena censura em mim próprio quando copio mp3. No entanto, reflicto e acabo sempre com mais justificações do que sentenças. Porque as editoras não se dão ao trabalho e só querem lucrar e publicitar, e não dar a ver, porque os discos são ridiculamente caros, porque o mercado de segunda mão é incipiente e não se consegue desenvolver rapidamente porque as pessoas não sabem ou não querem saber. Porque todas as semanas os suplementos mitómanos dos jornais vão dando corpo aos novos génios de que se alimentam, e é mesmo espantoso como há quem ainda queira mudar as coisas às vezes.

A ver se sou mais claro. Aqui mesmo à minha frente, acima do monitor do computador, estão alinhados os cd's de uma colecção de ópera que comprei durante uns dois anos. A maioria deles, ainda não os ouvi. Um que já ouvi foi "Wozzek", de Alban Berg. Acho até que a peça anda aí em exibição algures. Ora, eu ouvi "Wozzek" já várias vezes, mas nunca li o libreto enquanto ouvia. Eu não conheço o seu enredo, não sei quem é Wozzek, as suas motivações e angústias. Espantaram-me as vozes modernistas livres do Romantismo, e por isso ouvi repetidamente. Mas a experiência não foi total, ou seja, eu não usufruí de tudo o que a obra tinha para me oferecer. Senti algo parecido na Bienal de Veneza deste ano: no meio da alimentação fraquejante do Interrail, a atenção e a força física não resistiam a cinco horas em cada módulo. Pelo final, passava já pelas coisas sem tentar compreendê-las; sem que verdadeiramente, ao fim e ao cabo, tivesse passado por elas.

Este é o paradigma do consumidor de cultura no seu pior sentido. Não é o de poder legitimamente esperar da sua compra um produto de qualidade e o de uma espécie de direito social às prestações (se bem que mais exigível ao Tempo do que ao Estado) a meios eficazes, presentes e cada vez mais diversificados e descentralizados de distribuição cultural. É, sim, o de trocar a apreciação pelo uso. Como os adolescentes que põem o manual debaixo da almofada à noite, convictos de que acordarão com a matéria sabida de manhã, parece que a invulnerabilidade quotidiana que o nosso tempo nos exige impõe-nos por consequência uma relação de simples presença para com os objectos culturais. Apenas precisamos de estar lá enquanto o disco toca ou de perceber o enredo do filme para dizer que já o vimos e até podemos saltar as descrições para dizermos que o livro está lido.

Este estado de coisas está, é claro, relacionado com a emancipação da comunicação social em relação à realidade, o que a transforma numa máquina independente, com funcionamento e mecânica autónomos. Os jornais têm de ser publicados e a televisão tem de transmitir, ponto final. Por dia ou por semana há um número de páginas ou uma série de minutos a preencher. Ora, o nosso estatuto social acaba por se medir também a partir do nosso domínio das coisas que caem no social, e é isso o que a comunicação social faz, atira as coisas para o domínio do social, frequentemente sem que elas o mereçam. Mas ela fá-las merecer. Legitima-as. E esse, sim, é um factor de desvalorização da crítica pelo público. Porque ela lhe disse como válido algo que não o era, porque não se explicou bem. Claro que a crítica defende-se, dizendo que, não sendo aquela a sua opinião particular, rege-se pelos critérios do público-alvo do seu órgão. Ou o contrário, que não tem nada que ligar ao seu público, que diz aquilo que dela sai em bruto, pois só assim a verdade pode sair e ser útil a alguém. E assim caímos num círculo vicioso de conceitos, de armadilhas montadas, desmontadas e de novo montadas pelas Ciências da Comunicação.

Há que substituir o uso da obra pela apreciação da obra. Há que dotar as pessoas (pela escola, pelos jornais, pela rádio, pela televisão) de ferramentas que lhes dêem lucidez nos seus actos culturais, que lhes permitam saber escolher e julgar, responder porquê sem terem que se limitar àquilo que está a dar. Há que dar dignidade ao público e acabar com o MEDO que faz com que ele seja servil para com aquilo que lhe é dado e com que aquilo que lhe é dado seja servil para com ele. Há que fazer com que os clássicos se consigam encontrar na nossa língua e impedir que os que se encontram custem 35 euros, como a nova tradução da Odisseia. Há que mudar esta merda toda, dar-lhe uma volta, virá-la do avesso, deixar de dividir o país e o mundo em burros e espertos, ganhar respeito a quem o merece e ajudar quem não o merece a tê-lo.

Arrumo a Patti Smith, fecho o caderninho com uma definição apontada, ponho o volume do Houaiss no lugar. Sobre a mesa fica só um livro. Ando a ler a Bíblia porque decidi voltar ao início, e no início era o caos. Aconselho.
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