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respostas estacionadas – para Sérgio, III


Por último, caro amigo, quanto à contra-crítica ao “A Paixão de Cristo” e continuando com a estrutura anterior:

1. “«a coragem» de ensanguentar e dilacerar o corpo de Cristo”. A “coragem” de que falo na minha crítica não é adequada ou não deve ser tomada no sentido de “falta de medo” (se bem que a expressão de uma visão pessoal seja sempre algo de corajoso – este filme não é um filme de Hollywood e foi feito unicamente por causa da vonatde de Gibson): deve antes ser entendida como um arrojo de dar a mostrar uma novidade em que, a bem dizer, não há novo. É que não foi Gibson, repare-se, a ensanguentar e a dilacerar Cristo – foram os romanos (e, depois, os evangelistas, nas suas narrativas). O estimulante do filme é precisamente o facto de narrar a Paixão – história pendurada ou azulejada ou representada por qualquer outra forma em quantas paredes de igrejas por esse mundo fora? – com o realismo que já existia verbalmente e que nunca tinha sido transposto para imagem. Há por isso algo de radicalmente novo, não no filme enquanto filme, mas enquanto narração da morte de Cristo. A história existe há 2000 anos e faz parte elementar da nossa cultura, da cultura ocidental. É história que já é género em si mesma, é um mito primordial que ultrapassa os limites do religioso. Digamos que este filme pouco estimulante conta de modo impressionantemente novo uma história de milénios tornada já quase disciplina artística e que sempre trouxe incorporada a dimensão que ele explicita.

2. “também capaz de ser esfolado vivo no grande ecrã, da mesma forma que um sem número de outras personagens «vazias» de dimensão moral”. Esfolado, sim; mas não sem personalidade. O que se passa em “A Paixão de Cristo” é que o filme dá uma noção sem rival do corpo de Cristo. Ele inventa-o de modo incontornável, porque se deixa encher por ele. Por isso, não é do “sacrifício de um homem” de que se fala – é do sacrifício de um corpo que nunca antes tinha existido e que foi desta feita inventado com tanta intensidade.

3. Dizer “ser o primeiro a traduzir por imagens a violência inerente à história de Cristo, enquanto outros preferiram explorar as suas relações com as pessoas, a sua bonomia, a sua santidade, etc.”, desvalorizando assim o que Gibson teria conseguido, implica logicamente uma desconsideração da violência enquanto instrumento de narração. E, citando Tarantino, “dizer que não se gosta de cenas de violência nos filmes é tão ridículo como dizer que não se gosta de cenas de dança nos filmes”.

4. Não há nada de mal com “A Vida de Brian” (embora eu pessoalmente prefira “O Santo Graal”). Mas deixa-me pôr-te a questão nestes termos: se vivêssemos na Nápoles de inícios do século XVII e Caravaggio tivesse acabado de pintar o seu “Sete Actos de Misericórdia”, eu dizia-te para ires ver, mesmo que ninguém tivesse gostado do quadro. Porque, tal como com este filme, bom ou mau, nunca ninguém tinha visto aquilo daquele modo. Ou, ainda melhor, nunca ninguém tinha visto aquilo que já toda a gente sabia.
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